Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

Carta da Guerra

Avô, escrevo-te da guerra a que vamos sobrevivendo aqui em baixo. Isto está bem pior do que quando te foste embora, o que me leva a concluir que foi por isso que piorou. Mas nada que me surpreenda, que eu bem que sempre achei que o Mundo era um lugar melhor porque tu existias nele.

 

Sabes, falo muito de ti, especialmente às pessoas que entraram na minha vida e que não te conheceram. Digo-lhes que és igual às outras pessoas todas, só que és especial porque me criaste e porque és meu. E elas acreditam, pelo menos as que gostam mesmo de mim.

 

Eu cá estou. Na mesma.

Ah, fiz anos entretanto, mas isso sabes tu. Nunca te esqueceste e até hoje sinto que nunca faltaste.

Estou a pensar em emigrar novamente, conhecer outras coisas, voltar a estudar. Mas depois conto-te melhor, ainda estou a matutar nisto. Há dias que me parece mais fácil, sabes?

 

Os tios estão bem também, pelo menos de saúde. A madrinha continua a dividir-se pela fábrica e pelas limpezas. Ter dois trabalhos começa a sentir-se nas pernas. Mas ela já tem a cirurgia marcada. Os médicos dizem que é uma coisa simples, mas já sabes que os nervos lhe dão para comer mal.

O padrinho teve de fechar a empresa e ainda está em casa. Não tem direito a subsídios mas mandaram-no fazer um curso de informática. O que alivia é a casa que foi ele que a fez e não precisa de pagar créditos ao banco, se não nem sei como era. A prima esmerou-se e ganhou uma bolsa para tirar o mestrado. Vamos ter uma mestra na família! Espero que aí em cima tenham babetes suficientes.

 

A mãe também está bem. Anda é muito cansada. Já são muitos anos atrás de um balcão desde as sete da manhã. As coisas no café não estão fáceis, é o IVA que está insuportável, é o IRC, é o gás, é a luz e a água e é não se poder aumentar os preços para não se perder a clientela. E não imaginas o que é que aconteceu no outro dia. Em plena hora de almoço, entrou a polícia e a ASAE pelo café a dentro, com um aparato digno de uma rusga colombiana. Quando ela me contou estava tão assustada e eu fiquei com tanta raiva que até chorei. Sabes, irrita-me, cada vez mais, o desprezo com que Portugal trata as pessoas que fazem dele país. E eu gostava de a ajudar mais do que tenho feito, mas já sabes como é que ela é. Não gosta de fazer mais nada. E eu não sei se deva obrigá-la ou não. Só a quero ver mais feliz, e compensá-la pela menos boa filha que cheguei a ser, e às vezes sinto que não sei como. Gosto tanto dela.

 

Bom, mas não me vou alongar mais. Sei que o teu tempo é eterno mas quero que aproveites para descansar.

 

Manda-me notícias quando puderes. Diz-me se Deus existe. Diz-me se morrer dói...ou diz-me só se também tens muitas saudades minhas. 

 

Fazes tanta falta.

 

Com amor,

Cátia.

 

 

P:S: No fim-de-semana, fui lá a casa e apanhei uma sacada de abrunhos. Este ano deram muito.

 

publicado por Cátia Domingues às 21:20
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1 aplauso:
De S a 31 de Julho de 2014 às 12:24
Revi-me no texto.
Na raiva que é também ouvir a história de que entro um grupo de GNR e ASAE pelo café dos meus pais como se eles guardassem toneladas de droga ou tinham criancinhas anãs a trabalhar no balcão.

Custa ver a minha mãe das 7 às 23h, a trabalhar que nem uma formiguinha e tem sempre força para mais, às vezes penso que gostava de ser como ela quando for mãe.

As saudades da minha avó, o trabalho que é uma merda mas vai dando para ter € (até consegui viajar este ano uuhuuhu).

É o que temos.
Ah e acredito que sempre que falamos em quem "partiu" estamos mais perto deles e ouvem tudo o que dizemos dando-nos força e exemplo para não baixar os braços.

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