Sexta-feira, 3 de Agosto de 2012

Dois pés.

Voltar.

Com os dois pés.

Acho que nunca estive tão assustada em toda a minha vida.

É mais fácil ir que voltar. Surpreendentemente.

 

Porque quando vais e soltas finalmente as amarras da costa do coração, sentes aquela vibração miudinha pela espinha acima que é tão intensa, que tu que nunca te viciaste em nada, aceitas o vício de ir..e vais com direito a tudo, desde os abraços molhados da mãe aos lenços brancos que ao longe se vão transformando em pombas brancas de liberdade. Pelo menos na tua cabeça vão - quem não gosta de lirismos atire a primeira pedra.

 

E choras muito. E gritas com a cabeça fora da janela que queres voltar para trás, principalmente quando o caminho é mais sinuoso e te lembras que te esqueceste dos comprimidos do enjoo na mesinha de cabeceira - a mamã bem que avisou mas quiseste levar isto da independência demasiado a sério.

 

Uma viagem em que, muitas vezes, nem a ti própria te suportas. Vais nesse medo todo do desconhecido mas com a íntima excitação da oportunidade dourada que conquistaste.  "Se eu soubesse o que sei hoje faria as coisas de maneira diferente". Fazes contas de cabeça. Quantas vezes a vida te consome mais do que tu a ela? Cabra.

 

Tela em branco. Tábua Rasa. Estaca 0. Ou como dizem os ingleses, que não sei porquê soa sempre melhor naquela nossa parte cinematográfica do cérebro, fresh start.

 

E vais. Para onde ninguém te conhece. Onde até tu vais ter o prazer, e a inevitabilidade, de te conhecer.

 

E quando finalmente aterras consomes a vida desenfreadamente por tudo aquilo que ela te fez e fá-la pagar pelo que não te deixou fazer antes..

Dás-te ao luxo. Metes-te a jeito. Arriscas viver numa ilha.

 

Porque ali as coisas são só mais ou menos verdade de meias verdades. Porque sabes que se correr mal podes sempre fazer marcha-atrás e já está. Desenvolves a vital necessidade de ires beber a casa de vez em quando, porque as meias verdades dão-te saudades de ti. 

E até isso é diferente. Quando voltas a pé coxinho, sabendo que é só paragem para te abasteceres, tu mesma és diferente…porque só vieste cá de visita e como convidada que és sabes, só tens é de ser bem recebida e a tua maior responsabilidade é limpar os pés antes de entrar.

 

O que é que te pode ter corrido mal?

Teres Oferecido cópias autografadas do livro da tua vida e arriscado a que não gostassem da história. Teres Sido de um momento para o outro atingida por aquela coisa à primeira vista e teres-te tornado em personagem de uma história escrita a duas mãos. Uma cá e uma lá. Uma história dividida entre o ir e o voltar. 

 

Fechaste os olhos e deste-lhe a mão. Se te pediu calma acedeste, e de mãos dadas aceleraste o passo do teu coração sem que se tivesse apercebido. Deixaste-te iludir com truques de magia porque estás cansada de tentar adivinhar tudo e é tão bom quando te acontecem coisas que não consegues explicar.

 

Quando voltaste, e quanto mais o tempo passa, percebeste que uma das mãos criadoras se tornou, ou foi, invisível, que talvez nem sequer existiu..fez parte de um golpe da tua imaginação fértil e de uma necessidade de faz de conta. A meia verdade final que foi capaz de te iludir e magoar de verdade.

 

E regressar deixa-te aquela sensação agridoce na boca que te chega a enjoar o pensamento. 

E as coisas são como são.

 

Perder um jogo em que nem sequer deste cartas acontece.

 

A verdade é que te deste ao luxo de viver estas histórias, metade a sério metade a brincar, que nunca chegam a destinos nada de especial. São toscas. Ficam quase sempre a meio, vividas pela metade, a metade do brincar.

 

E agora que voltei, pega-se na caneta e faz-se tudo outra vez.

 

Agarra na aprendizagem por experiência e leva só a que te interessa…não leves tudo, porque a graça está quase toda em sermos um bocado parvos. Porque somos instintivamente idiotas e sabe tudo muito melhor assim.

 

Transformas-te. Regressas. E percebes que nada mudou por aqui…só tu. 

 

E a ansiedade por sair regressa novamente com a diferença de desta vez ser por sobrevivência, seja lá o que isso for.

 

 

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publicado por Cátia Domingues às 18:50
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